Terça-feira, 7 de janeiro de 2020 – 21h52
Eu
trabalhava na entrada da chácara, terminando a cerca ao lado da porteira.
Também cavava o chão (para quê?). Acabei descobrindo uma caveira que, olhada de
perto, era bem mesmo uma cabeça ainda em decomposição, carnes escuras figurando
o que teria sido um rosto. Mas era minha própria cabeça, uma antiga que eu
teria usado em outro momento de minha vida. Ela tinha sido cortada quase na
base do pescoço, que terminava numa série de ossinhos dispostos em círculo como
plugues para conectar ao resto. Na minha atrapalhação, acabei acertando a
cabeça com a pá e algum líquido esguichou em mim. Depois de ter jogado no
buraco alguma coisa imprecisa, ajeitei a velha cabeça na parte mais funda e
comecei a cobri-la de terra. Parece que construí finalmente a cerca, mas não
como devia e sim em volta daquele túmulo inesperado. Tinha um cuidado enorme
com os detalhes do serviço, pois queria provar a meu pai que eu podia fazer uma
cerca tão bem quanto ele. Depois eu estava em outro buraco ou depósito e era
surpreendido. Era meu pai quem chegava e eu procurava algo pra vestir, pois
tinha trabalhado o tempo todo sem roupa. Estava imundo e me sentia ridículo, no
ar a sensação opressiva de que eu fazia algo errado, sempre com receio de que
alguém passasse na estrada.








