"(...)Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo." Clarice Lispector, no conto "O ovo e a galinha".
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segunda-feira, 31 de março de 2008
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Residual
Anoitentorpecendo, quem sou eu pra negar?
Qualquer coisa se quebrou, mas eu juro que nada caiu. Não fui eu.
Este silêncio é de quem quis.
Fosse outra coisa, festa ou alarme, qual a importância?
Não vou contar a minha doença. A solução é contar as horas. Quando muito, os dias.
De dia em dia, dois anos. Ou quase.
Vivo a impaciência inseparável do meu sossego.
Meu tempo é este, este lado que ainda não dói. Esta fresta, por onde olho...
Tenho cartas de amor pra entregar. Tenho um amor pra viver, cada dia janela se abrindo.
Futuro é só quando, à tarde, eu espero a noite chegar, encontroencanto...
Me multiplico em páginas, quem lê (ela) sabe: amar requer um pedaço de mim em cada palavra...
Repor é preciso.
Repouso. Só descanso enquanto me fragmento...
Viver é grande. Ainda que o tempo seja pequeno.
Um pouco de sonho pra me desenhar...
Um dia ainda lembro que gosto tinha a vida no começo.
Enquanto isso, alguns passos.
Passei no vestibular.
Agora ouvi...
Qualquer coisa se quebrou, mas eu juro que nada caiu. Não fui eu.
Este silêncio é de quem quis.
Fosse outra coisa, festa ou alarme, qual a importância?
Não vou contar a minha doença. A solução é contar as horas. Quando muito, os dias.
De dia em dia, dois anos. Ou quase.
Vivo a impaciência inseparável do meu sossego.
Meu tempo é este, este lado que ainda não dói. Esta fresta, por onde olho...
Tenho cartas de amor pra entregar. Tenho um amor pra viver, cada dia janela se abrindo.
Futuro é só quando, à tarde, eu espero a noite chegar, encontroencanto...
Me multiplico em páginas, quem lê (ela) sabe: amar requer um pedaço de mim em cada palavra...
Repor é preciso.
Repouso. Só descanso enquanto me fragmento...
Viver é grande. Ainda que o tempo seja pequeno.
Um pouco de sonho pra me desenhar...
Um dia ainda lembro que gosto tinha a vida no começo.
Enquanto isso, alguns passos.
Passei no vestibular.
Agora ouvi...
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Ensaio de um retorno
O abandono se presta a caminhos
que só o descaminho conhece:
pedidos e mais pedidos
nos intervalos:
voltar, voltar, voltar
quem volta de qualquer parte
para qualquer coisa
perdeu um pedaço
do caminho
ou de si mesmo.
que só o descaminho conhece:
pedidos e mais pedidos
nos intervalos:
voltar, voltar, voltar
quem volta de qualquer parte
para qualquer coisa
perdeu um pedaço
do caminho
ou de si mesmo.
domingo, 10 de junho de 2007
Entre o que eu não disse e o que não vou dizer
"EU vivi, portanto, apenas de diário e no diário, e isso não foi de minha escolha nem de minha vontade, pois vontade é uma coisa tísica que diz respeito ao registro do sorvete e escolhas, aquelas que contam, foram feitas quando tínhamos os olhos vendados, quando ainda não tínhamos palavra nem sabíamos o que escolher significava."
Juliano Garcia Pessanha, em "Província da Escritura"
Juliano Garcia Pessanha, em "Província da Escritura"
sábado, 26 de maio de 2007
Senhas e outros sonhos
começarde inflama: quero a idéia-silhueta de um jeito de ser que não precise de explicação EXPLICANSAÇO quero o delírio de existir apenas e apesar de, sem pesos e sem medidas
desmedidamente exato no que tenho de informe (este jeito de ignorar sabendo de antemão)
escrever é para os deliriosos o que amar é para os encantados mais realistas
eu queria porque queria divergir do que vejo e depois me divertir às custas da vertigem (que é verter os avessos)
eu não queria que olhos verdes tivessem sobre mim esse efeito de janela aberta pro infinito (o infinito mais próximo da minha imagem refletida)
pensei em escrever um desertoário, diário dos pequenos desertos de uma vida que só tem de deserto o gosto pela ausência
a vida não tem gosto mas eu gosto
saber que logo estarei morto é só um jeito de pôr o despertador no topo da vida
e amanhecer amanhecer amanhecer
e tecer com música e palavras o pedaço que falta
desmedidamente exato no que tenho de informe (este jeito de ignorar sabendo de antemão)
escrever é para os deliriosos o que amar é para os encantados mais realistas
eu queria porque queria divergir do que vejo e depois me divertir às custas da vertigem (que é verter os avessos)
eu não queria que olhos verdes tivessem sobre mim esse efeito de janela aberta pro infinito (o infinito mais próximo da minha imagem refletida)
pensei em escrever um desertoário, diário dos pequenos desertos de uma vida que só tem de deserto o gosto pela ausência
a vida não tem gosto mas eu gosto
saber que logo estarei morto é só um jeito de pôr o despertador no topo da vida
e amanhecer amanhecer amanhecer
e tecer com música e palavras o pedaço que falta
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
Resíduo
PAUSAS
colecionar as vírgulas
abandonadas
partidas
as vírgulas que se quebraram
na pressa de contar
um segredo
ou no deslumbre
de um susto
delas extrair o tempo guardado
(para respirar?)
e exibir os sons:
pausas no silêncio
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
Vertiginografias
a mulher que morreu dias atrás ardia no sol de uma quarta-feira sem mais pretensões que a de viver até apagar a idéia do fim fabricado o eco do último instante numa notícia arranhada em alto-falantes som é tudo o que sobra desdobramento e depois um eco um esboço de recordação mais adiante e por fim substrato artefato projeto atrasado nada esquecimento oblivio
as paredes da existência são cascas de ovo admirável mundo-ovo que mal tocado escancara aflições e esperanças e medos e fugas e dói não saber o que foge a essa análise que percepção que omissão vinda de outros séculos quem escondeu a palavra que abriria o cofre a frase que derrotaria essa esfinge feita de espera e ânsia
ninguém nas escadas e nos corredores ninguém na calçada ninguém capaz de passar por uma rua e ser para sempre alguém que passa por uma rua sempre alguém que passa por todas as ruas possíveis e impossíveis sempre alguém que pode estar aqui ou ali sem controle e se orientando sempre pela passagem das horas pela necessidade de estar aqui e depois em outra parte movimentando
porque viver jorra movimentos pra todo lado quem olha quem caminha quem corre quem move os braços alçando todos os gestos quem articula a pronúncia de cada palavra ah as medidas para se saber existindo!
construções e ruínas para figurar o ir-e-vir de todas as coisas quem omitiu o desastre o desacerto o desalinho não sabia nem nunca saberá o paradeiro das esperanças mais reluzentes
as paredes da existência são cascas de ovo admirável mundo-ovo que mal tocado escancara aflições e esperanças e medos e fugas e dói não saber o que foge a essa análise que percepção que omissão vinda de outros séculos quem escondeu a palavra que abriria o cofre a frase que derrotaria essa esfinge feita de espera e ânsia
ninguém nas escadas e nos corredores ninguém na calçada ninguém capaz de passar por uma rua e ser para sempre alguém que passa por uma rua sempre alguém que passa por todas as ruas possíveis e impossíveis sempre alguém que pode estar aqui ou ali sem controle e se orientando sempre pela passagem das horas pela necessidade de estar aqui e depois em outra parte movimentando
porque viver jorra movimentos pra todo lado quem olha quem caminha quem corre quem move os braços alçando todos os gestos quem articula a pronúncia de cada palavra ah as medidas para se saber existindo!
construções e ruínas para figurar o ir-e-vir de todas as coisas quem omitiu o desastre o desacerto o desalinho não sabia nem nunca saberá o paradeiro das esperanças mais reluzentes
desalinhas

Dias e dias sem uma palavra. E quando volto, é com sono e dor de cabeça.
Nunca fui muito responsável ao pensar na idéia do meu futuro. E nem sei se é essa negligência que me deixa irritado só de sentir o peso que as pessoas dão a essa palavrinha. Futuro... FU-TU-RO... futuro! Vai ver eu me perdi com a idéia de que só é possível alcançar o intervalo de hoje, hoje-sempre...
Mas existem coisas que se arranjam com alguns passos firmes. E assim é que eu saí da incerteza e vim cair numa idéia nova, ânimo novinho em folha. Num intervalo de dois meses: um concurso, uma espera, um resultado (um bem-vindo segundo lugar) e uma contratação. Trabalho novo, pedaço de futuro se desenhando...
sábado, 27 de janeiro de 2007
domingo, 21 de janeiro de 2007
Inesperada marca de tinta
"Que poderemos criar entre estes vestígios estes despojos?"
(trecho de um post do blog "A tinta" )
(trecho de um post do blog "A tinta" )
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
Dostoiévski explica ( I )

Sou como o Raskolnikhóf do Crime e Castigo. Só que, em vez de ter matado alguém, eu arranquei pedaços de mim e substitui por coisas alheias, um pensamento, um gesto, um jeito de agir e falar. Coisas alheias ou inventadas, pouco importa. De todo jeito, um crime...
O crime da idéia fixa.
"Abandonara por completo os seus trabalhos cotidianos e não queria preocupar-se com eles. Na realidade, não temia a dona da casa, por muito que pudesse tramar contra ele. Agora, ter de parar na escada, escutar todas as tolices daquela mulher, estúpida até o absurdo, e que não lhe interessavam absolutamente nada; todos aqueles disparates a respeito do pagamento, aquelas ameaças e lamentações, e, ademais, ter de falar, desculpar-se, mentir, não, preferia atirar-se como um gato pelas escadas abaixo e deixar-se cair ao abandono, contanto que não visse ninguém."
"Mas não tardou que voltasse a mergulhar numa espécie de profundo indiferentismo e, para sermos mais precisos, num completo alheamento de tudo, de tal maneira que caminhava sem fixar a atenção à sua volta e também sem querer fixá-la. Somente uma ou outra vez murmurava qualquer coisa por entre os dentes, obedecendo ao costume de monologar (...)"
Imagem: Matheus Nachtergaele, em cena do filme Nina (2004)
quinta-feira, 18 de janeiro de 2007
Efeito da insônia?
"De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra - Como um lápis numa península." Manoel de Barros, no Livro sobre nada
Eu queria ser claro ao dizer as coisas. Bem, é muito fácil encontrar o caminho da clareza e ir andando, depois de extrair dos destroços da minha vontade um "Fiat lux!" bem sonoro, como um grito pra marcar o início. Fácil porque, na verdade, eu uso complicações para distrair os outros da minha falta de jeito com as palavras. Como usar óculos escuros: basta deixá-los de lado quando se quer ver melhor...
E isso pretendia ser um desabafo na mesma linha das "confissões" feitas pelo personagem do García Márquez (ver o trecho do Memórias de minhas putas tristes). Enfim, tem que ser alguma coisa, que seja um desabafo.
Eu sou dissimulado. Para evitar a exposição dos meus cacos ou, o contrário, mostrar total constância, equilíbrio, escolho qualquer atalho entre, um meio-termo entre expor toda a ruína e representar a farsa da existência. Pensando bem, isso não é ser dissimulado, pelo menos não totalmente. Já não dá pra dizer o mesmo da minha desconfiança. Essa não se divide e nem é flexível como qualquer outro defeito que eu possa ter. É maciça, de pedra, embora não tão aparente como eu gostaria (e aqui já entro em contradição com o que disse sobre a dissimulação). E é assim: desconfio, logo existo, esse o passaporte para a minha compreensão do mundo (de parte dele)...
Bastaria um pouco mais - um pouquinho só - de ânimo para eu deixar bem nítido o esboço da minha misantropia. Mas estou cansado, vindo de umas sessões de insônia...
E só pra dar um gostinho de indiferença a tudo isso:
"Pouco me importa. Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa" (Alberto Caeiro)
Eu queria ser claro ao dizer as coisas. Bem, é muito fácil encontrar o caminho da clareza e ir andando, depois de extrair dos destroços da minha vontade um "Fiat lux!" bem sonoro, como um grito pra marcar o início. Fácil porque, na verdade, eu uso complicações para distrair os outros da minha falta de jeito com as palavras. Como usar óculos escuros: basta deixá-los de lado quando se quer ver melhor...
E isso pretendia ser um desabafo na mesma linha das "confissões" feitas pelo personagem do García Márquez (ver o trecho do Memórias de minhas putas tristes). Enfim, tem que ser alguma coisa, que seja um desabafo.
Eu sou dissimulado. Para evitar a exposição dos meus cacos ou, o contrário, mostrar total constância, equilíbrio, escolho qualquer atalho entre, um meio-termo entre expor toda a ruína e representar a farsa da existência. Pensando bem, isso não é ser dissimulado, pelo menos não totalmente. Já não dá pra dizer o mesmo da minha desconfiança. Essa não se divide e nem é flexível como qualquer outro defeito que eu possa ter. É maciça, de pedra, embora não tão aparente como eu gostaria (e aqui já entro em contradição com o que disse sobre a dissimulação). E é assim: desconfio, logo existo, esse o passaporte para a minha compreensão do mundo (de parte dele)...
Bastaria um pouco mais - um pouquinho só - de ânimo para eu deixar bem nítido o esboço da minha misantropia. Mas estou cansado, vindo de umas sessões de insônia...
E só pra dar um gostinho de indiferença a tudo isso:
"Pouco me importa. Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa" (Alberto Caeiro)
quarta-feira, 17 de janeiro de 2007
domingo, 14 de janeiro de 2007
desertoásis
chuvisqueiro se estendendo lá fora umidade para os dias que virão secos
e eu que pintei de azul-mar a cerca que fiz nos fundos de casa
agora da porta em diante o meu olhar recorta um pouco de azul das tábuas e um pedaço de grama muito verde e muito alta por causa da chuva dos últimos dias
quem se habilita a cortar a grama úmida numa manhã de domingo?
e me lembro que chover era o acontecimento que me lavava a infância e fazia dela o grande deslumbramento de viver, a vida se fazendo líquida misturada à terra planta recém-nascida
hoje com uma pequena distração os pingos entram pela janela que alguém esqueceu aberta e é mais fácil pensar que a chuva faz a grama crescer demais do que ver os pedaços de deserto trazidos pelo tempo porções de areia soterrando antigas memórias
e eu que pintei de azul-mar a cerca que fiz nos fundos de casa
agora da porta em diante o meu olhar recorta um pouco de azul das tábuas e um pedaço de grama muito verde e muito alta por causa da chuva dos últimos dias
quem se habilita a cortar a grama úmida numa manhã de domingo?
e me lembro que chover era o acontecimento que me lavava a infância e fazia dela o grande deslumbramento de viver, a vida se fazendo líquida misturada à terra planta recém-nascida
hoje com uma pequena distração os pingos entram pela janela que alguém esqueceu aberta e é mais fácil pensar que a chuva faz a grama crescer demais do que ver os pedaços de deserto trazidos pelo tempo porções de areia soterrando antigas memórias
sábado, 13 de janeiro de 2007
Imago et verbum
quarta-feira, 10 de janeiro de 2007
Desarticolado

vertigem para onde resvala o imensurável pedaços de memória amarrados feixe de lenha pra queimar um dia fogueira monumental do que guardo ( ardo tudo o que fui madeira guardada como espera de incêndio) ah os cacos dos dias que se foram dependurados na janela! enfeite desbotado prego velho que merda de aparências mal arquitetadas vive o grande projeto de ser qualquer coisa risco líquen muro esquina esta coisa de estar atrás dos olhos tudo o que sou é janela de ver a si mesmo em fragmentos e sei que vou morrer ah mas ilha cercada de morte por todos os lados tem de receber um náufrago nativo-estrangeiro seja lá o que for de que cor textura ritmo será feito o último instante e onde estacionar as memórias todas entalhar na madeira rabiscar num muro vejam fui aquele morto antecipado aquele cujos pedaços mal fossilizados ainda recendem a animal vivo vinculado a uma porção de matéria que se chamam pertences bugiganças tranqueiras essas coisas de que o uso e o desuso se nutrem por favor tirem tudo o que está nos arredores da minha retina não quero nada que me roube a atenção e no meio de um quase oásis-nada feito de ausência quero encontrar a fonte organismo-textura para a minha consciência
segunda-feira, 1 de janeiro de 2007
Trecho como um fragmento de espelho...

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio."
Gabriel García Márquez, em Memória de minhas putas tristes
Chaos et vita.
domingo, 31 de dezembro de 2006
Tempus sine nomine

Adicione uma chuvinha teimosa e um belo resfriado a um dia de domingo pra ver no que dá: esta falta de jeito pra fazer qualquer coisa. Um pouco de música, um tanto de leitura, mais um tempinho com jogos, um pouco de conversa... Temos aí um dia escorregadio, passando entre coisas, sem se deter em nada. As últimas horas do ano escorrendo.
Esquisito é se afastar um pouco do próprio pensamento e dar por si mesmo numa sequência de dias que existem independentes de nós. E no fim toda a definição (arbitrária) que damos à passagem do tempo (horas, meses, etc.) é o que importa. "31 de dezembro" parece ser um lado, "01 de janeiro", o outro lado de um lapso no tempo. E nós ficamos no intervalo do dia que passa, fronteira entre o passado e o futuro de nós mesmos. De nosso, verdadeiramente nosso, só este dia que está se acabando, este dia sem nome, sem milagre e sem enfeite...
E eu deveria dizer, seguindo os meus próprios descaminhos: "Feliz Intervalo Novo", um brinde ao tempo sem janeiro-fevereiro, à vida sem número. Um brinde a tudo que se passa para além da janela, anonimamente...
Não poderia terminar sem deixar aqui um pedacinho inesquecível da minha leitura de hoje, de um conto do Saramago (O Conto da Ilha Desconhecida):
"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar"
Chaos et vita.
sábado, 30 de dezembro de 2006
Esquadros
Uma pausa, um pouco de cor na monotonia desse p&b
...
Esquadros
Adriana Calcanhoto
Composição: Adriana Calcanhoto
eu ando pelo mundo prestando atenção
em cores que eu não sei o nome
cores de almodóvar
cores de frida kahlo, cores
passeio pelo escuro
eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca,
uma cápsula protetora
eu quero chegar antes
pra sinalizar o estar de cada coisa
filtrar seus graus
eu ando pelo mundo divertindo gente
chorando ao telefone
e vendo doer a fome nos meninos que têm fome
pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle
eu ando pelo mundo
e os automóveis correm para quê?
as crianças correm para onde?
transito entre dois lados de um lado
eu gosto de opostos
exponho o meu modo, me mostro
eu canto pra quem?
pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle
eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
minha alegria, meu cansaço?
meu amor cadê você?
eu acordei
não tem ninguém ao lado
pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle
(imagem: Janela do Ateliê em Saint-Remy, Van Gogh, 1889)
...Esquadros
Adriana Calcanhoto
Composição: Adriana Calcanhoto
eu ando pelo mundo prestando atenção
em cores que eu não sei o nome
cores de almodóvar
cores de frida kahlo, cores
passeio pelo escuro
eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca,
uma cápsula protetora
eu quero chegar antes
pra sinalizar o estar de cada coisa
filtrar seus graus
eu ando pelo mundo divertindo gente
chorando ao telefone
e vendo doer a fome nos meninos que têm fome
pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle
eu ando pelo mundo
e os automóveis correm para quê?
as crianças correm para onde?
transito entre dois lados de um lado
eu gosto de opostos
exponho o meu modo, me mostro
eu canto pra quem?
pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle
eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
minha alegria, meu cansaço?
meu amor cadê você?
eu acordei
não tem ninguém ao lado
pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle
(imagem: Janela do Ateliê em Saint-Remy, Van Gogh, 1889)
sexta-feira, 29 de dezembro de 2006
verbomosaico
Outros fragmentos. E desta vez vai um título nada explícito. Também, se continuasse a sequência de "Fragmentos...", isso ficaria (mais) repetitivo e, claro, com uma dose extra de chatice. Hum... E é bom eu dizer logo que a minha intenção inicial era justamente esta: deixar aqui qualquer coisa (de autoria minha ou não) que sirva para me explicar. Com trechos, pedaços, costurar a colcha de retalhos da minha mente. Ou, mais dolorosamente nítido, juntar os cacos. Dos estilhaços fazer um mosaico, estabelecer uma nova ordem (psíquica, por enquanto) partindo do caos, sem tirar o deslumbre da desordem...
Agradeço à Maria Bertoche pelos melhores diálogos (e pelas dores de cabeça mais proveitosas) que eu já tive. A ela devo a descoberta de uns bons egofragmentos...
Rodrigo: (...) O que digo sobre mim é só um jeito de me sentir menos tolo do que os outras pessoas. Ser consciente da minha própria decadência é algo tão cheio de abismos que eu prefiro ser-para-os-outros, e ser justamente o delírio do que eu sou, blábláblá e etc. Com pedaços do que eu poderia ter sido ontem monto um mosaico bem bizarro, porém convincente, chego até a ser um bom amigo. Quem escreveu "Conhece-te a ti mesmo" (ah, um cara aí hehe), devia ter completado com "...por meio do engano".
Mais uma vez Manoel de Barros diz mais do que eu consigo com "filosofalhas":
"Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade"
Descobri a verdade como se tivesse encontrado um astrolábio ou um mapa de navegação de 500 anos atrás: já não serve...
Estou agindo como alguém que pensa entender, como um pessimista, ah, qualquer personagem desses muitos perdidos por aí...(...) (04/06/2006)
Rodrigo: Momento-confissão: eu sou um encadeamento de abismos abertos com simples palavras. E num quase big-bang eu continuo me fragmentando desde o dia em que me descobri sozinho diante de um caos que é só meu. Sou a ilha que eu mesmo criei para morar. E blábláblá, e "nocividades" sem fim... (05/06/2006)
Rodrigo: (...) A idéia que temos dos outros-vigiando-nossos-movimentos é a engrenagem que faz girar a vida humana. A lei dos outros, a Orientação Sábia dos Outros... A grande ditadura... (05/06/2006)
Maria: Mas não é à toa que é um grande problema da humanidade, esse. Adoramos falar que não, que "não importa o que os outros pensam de mim", mas no fundo é pra isso que mais ligamos. Fazemos bem, de certo modo. Se compilarmos tudo o que todos acham de nós devemos chegar a um personagem bem bacana. E talvez até mais verdadeiro do que aquele que achamos que somos. Acho que nossa relação com o mundo vale mais do que a de nós conosco, essa última é um tanto sem graça, na maioria das vezes, no mínimo vazia... Não seria a mesma coisa encenar se ninguém assistisse, mesmo que as melhores peças nunca tenham saído de dentro do quarto, da frente do espelho. 06/06/2006
Rodrigo: Olha, Maria, a vida é uma tragicomédia complicada demais para nosso pensamento estreito. A gente vai do riso ao choro, do ridículo ao sublime, sem ao menos enxergar todas as possibilidades, todas as trajetórias possíveis e impossíveis... Só pegamos uns poucos "flashes" da nossa própria atuação. Que miséria! Caindo e levantando, vamos acrescentando a nós mesmos coisas alheias, idéias alheias, pedaços de vidas alheias, numa tentativa (talvez) de conseguir um controle maior, ou pelo menos a ilusão de um controle maior sobre o que se passa à nossa volta. Então ficamos bem, e tudo é mais nosso do que a própria vida. Seria cômico, não fosse trágico. É. Seria trágico, não fosse cômico.
E subvertendo, e acrescentando, e representando nós vamos fingindo que somos originais, conscientes e, talvez, humanos... (07/06/2006)
Rodrigo: Ah, não dá para fingir que estamos a salvo nesta ilha (Orkut, nada sutil). Todo mundo espiona mesmo. A vida dos outros, não sei por que razão, sempre parece mais palpitante, mais instigante do que a nossa. Aqui as coisas ficam fáceis, passamos da estranheza à amizade de infância em questão de minutos. A máxima banalização... Sabemos que estamos sujeitos a tudo isso, mas queremos ser vistos, notados, observados, quase dissecados... Se não quiséssemos, era só não entrar nessa onda... É ou não é? (11/06/2006)
Maria: Queremos, infelizmente, precisamos ser queridos... Isso é triste.
Maria: A busca por ser aceito mereceria muitas divagações. Mas ela me encabula, não sei falar dela, não sei quando, onde ou porquê, só sei que existe, e é deprimente. Fazemos cada coisa pra sermos percebidos! Até fingimos que pensamos!Queremos platéia, no fundo queremos platéia. E uma bem atenta, cuidadosa, carinhosa. Gostaríamos tanto se todos da platéia fossem como os últimos - os amigos -, que, em busca deles, ou só por saber não ser possível todos serem, aceitamos que qualquer um veja, que seja pra jogar tomates, fingir interesse ou fazer comentários inconvenientes... (11/06/2006)
Agradeço à Maria Bertoche pelos melhores diálogos (e pelas dores de cabeça mais proveitosas) que eu já tive. A ela devo a descoberta de uns bons egofragmentos...
Rodrigo: (...) O que digo sobre mim é só um jeito de me sentir menos tolo do que os outras pessoas. Ser consciente da minha própria decadência é algo tão cheio de abismos que eu prefiro ser-para-os-outros, e ser justamente o delírio do que eu sou, blábláblá e etc. Com pedaços do que eu poderia ter sido ontem monto um mosaico bem bizarro, porém convincente, chego até a ser um bom amigo. Quem escreveu "Conhece-te a ti mesmo" (ah, um cara aí hehe), devia ter completado com "...por meio do engano".
Mais uma vez Manoel de Barros diz mais do que eu consigo com "filosofalhas":
"Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade"
Descobri a verdade como se tivesse encontrado um astrolábio ou um mapa de navegação de 500 anos atrás: já não serve...
Estou agindo como alguém que pensa entender, como um pessimista, ah, qualquer personagem desses muitos perdidos por aí...(...) (04/06/2006)
Rodrigo: Momento-confissão: eu sou um encadeamento de abismos abertos com simples palavras. E num quase big-bang eu continuo me fragmentando desde o dia em que me descobri sozinho diante de um caos que é só meu. Sou a ilha que eu mesmo criei para morar. E blábláblá, e "nocividades" sem fim... (05/06/2006)
Rodrigo: (...) A idéia que temos dos outros-vigiando-nossos-movimentos é a engrenagem que faz girar a vida humana. A lei dos outros, a Orientação Sábia dos Outros... A grande ditadura... (05/06/2006)
Maria: Mas não é à toa que é um grande problema da humanidade, esse. Adoramos falar que não, que "não importa o que os outros pensam de mim", mas no fundo é pra isso que mais ligamos. Fazemos bem, de certo modo. Se compilarmos tudo o que todos acham de nós devemos chegar a um personagem bem bacana. E talvez até mais verdadeiro do que aquele que achamos que somos. Acho que nossa relação com o mundo vale mais do que a de nós conosco, essa última é um tanto sem graça, na maioria das vezes, no mínimo vazia... Não seria a mesma coisa encenar se ninguém assistisse, mesmo que as melhores peças nunca tenham saído de dentro do quarto, da frente do espelho. 06/06/2006
Rodrigo: Olha, Maria, a vida é uma tragicomédia complicada demais para nosso pensamento estreito. A gente vai do riso ao choro, do ridículo ao sublime, sem ao menos enxergar todas as possibilidades, todas as trajetórias possíveis e impossíveis... Só pegamos uns poucos "flashes" da nossa própria atuação. Que miséria! Caindo e levantando, vamos acrescentando a nós mesmos coisas alheias, idéias alheias, pedaços de vidas alheias, numa tentativa (talvez) de conseguir um controle maior, ou pelo menos a ilusão de um controle maior sobre o que se passa à nossa volta. Então ficamos bem, e tudo é mais nosso do que a própria vida. Seria cômico, não fosse trágico. É. Seria trágico, não fosse cômico.
E subvertendo, e acrescentando, e representando nós vamos fingindo que somos originais, conscientes e, talvez, humanos... (07/06/2006)
Rodrigo: Ah, não dá para fingir que estamos a salvo nesta ilha (Orkut, nada sutil). Todo mundo espiona mesmo. A vida dos outros, não sei por que razão, sempre parece mais palpitante, mais instigante do que a nossa. Aqui as coisas ficam fáceis, passamos da estranheza à amizade de infância em questão de minutos. A máxima banalização... Sabemos que estamos sujeitos a tudo isso, mas queremos ser vistos, notados, observados, quase dissecados... Se não quiséssemos, era só não entrar nessa onda... É ou não é? (11/06/2006)
Maria: Queremos, infelizmente, precisamos ser queridos... Isso é triste.
Maria: A busca por ser aceito mereceria muitas divagações. Mas ela me encabula, não sei falar dela, não sei quando, onde ou porquê, só sei que existe, e é deprimente. Fazemos cada coisa pra sermos percebidos! Até fingimos que pensamos!Queremos platéia, no fundo queremos platéia. E uma bem atenta, cuidadosa, carinhosa. Gostaríamos tanto se todos da platéia fossem como os últimos - os amigos -, que, em busca deles, ou só por saber não ser possível todos serem, aceitamos que qualquer um veja, que seja pra jogar tomates, fingir interesse ou fazer comentários inconvenientes... (11/06/2006)
quinta-feira, 14 de dezembro de 2006
Outros fragmentos
"Sempre que me levanto
eu perco um novo pedaço
ouço os cacos rolando
a noite toda na escada"
(LYA LUFT, QUEDA LIVRE)
Trechos dispersos de diálogos por MSN...
Rodrigo Kháos diz:
arranco pedaços de mim e os substituo por material barato para agradar aos outros
Rodrigo Kháos diz:
Eu me mostrei em todos os defeitos, todas as erosões pessoais, me fragmentei, e me perdi em todas as direções. Ficar exposto é uma tragédia, eu diria
Rodrigo Kháos diz:
Como faz muito tempo, consegui recuperar uns "pedaços", mas tinha ficado exposto, vulnerável a todo tipo de desapontamentos
Rodrigo Kháos diz:
"Estou triste", parece caber a vida inteira dentro desse pequeno abismo feito de palavras.
Rodrigo Kháos diz:
Eu quando pego uma certeza nas mãos é um pouco como segurar algo que queime. E, não suportando, jogo tudo contra a parede. Resultado: certezas estilhaçadas, e eu pacientemente tento remendá-las.
(...)
Rodrigo Kháos diz:
Aqui do meu lado também não é diferente. Eu só uso um punhado de palavras para que ninguém ouça o zumbido do meu silêncio...
Rodrigo Kháos diz: ... a minha exaustão vem de perceber que, mal erguidos os alicerces do q imagino ser algo concreto (e, portanto, possível de ser levado adiante) eu com todo o meu caos me jogo em cima de tudo (do pouco contruído) e converto em ruínas (que doloroso: ruínas do que sequer chegou a ser!)
Rodrigo Kháos diz: E isso em relação a tudo, a todo momento
eu perco um novo pedaço
ouço os cacos rolando
a noite toda na escada"
(LYA LUFT, QUEDA LIVRE)
Trechos dispersos de diálogos por MSN...

Rodrigo Kháos diz:
arranco pedaços de mim e os substituo por material barato para agradar aos outros
Rodrigo Kháos diz:
Eu me mostrei em todos os defeitos, todas as erosões pessoais, me fragmentei, e me perdi em todas as direções. Ficar exposto é uma tragédia, eu diria
Rodrigo Kháos diz:
Como faz muito tempo, consegui recuperar uns "pedaços", mas tinha ficado exposto, vulnerável a todo tipo de desapontamentos
Rodrigo Kháos diz:
"Estou triste", parece caber a vida inteira dentro desse pequeno abismo feito de palavras.
Rodrigo Kháos diz:
Eu quando pego uma certeza nas mãos é um pouco como segurar algo que queime. E, não suportando, jogo tudo contra a parede. Resultado: certezas estilhaçadas, e eu pacientemente tento remendá-las.
(...)
Rodrigo Kháos diz:
Aqui do meu lado também não é diferente. Eu só uso um punhado de palavras para que ninguém ouça o zumbido do meu silêncio...
Rodrigo Kháos diz: ... a minha exaustão vem de perceber que, mal erguidos os alicerces do q imagino ser algo concreto (e, portanto, possível de ser levado adiante) eu com todo o meu caos me jogo em cima de tudo (do pouco contruído) e converto em ruínas (que doloroso: ruínas do que sequer chegou a ser!)
Rodrigo Kháos diz: E isso em relação a tudo, a todo momento
sábado, 25 de novembro de 2006
Fragmento orkutiano ( II ) - "Quem sou eu"

Não sei. E por isso eu leio, grito, vou pra lá e pra cá, ando em círculos. "Quem sou eu" deve estar em algum lugar, como um fóssil guardado para o futuro. Mas onde encontrar uma resposta, se nada traz impresso um aviso ou uma explicação do tipo: "Aqui está o que você é" ou "Era com isto que querias explicar-te a ti mesmo?" Quando me disseram que os livros guardam muitas respostas, comecei a ler. Era um caminho, ainda que se ramificasse em muitas direções. Não era o mais curto, o mais perigoso, nem o mais desafiador. Era um caminho como outro qualquer (a única diferença se faz sentir nos passos). E exatamente por isso, qualquer fragmento encontrado era um achado e tanto, se pudesse explicar ao menos um quase-nada de mim. Hoje, o grande mosaico do ser que se pretende montar um dia é só um punhado de fragmentos, recolhidos numa centena de livros e expostos nas mãos abertas:
1. Sou uma coisa entre coisas. Ferreira Gullar, no poema OVNI
2. Sou possivelmente/ uma coisa onde o tempo/ deu defeito. Idem
3. Eu próprio sou aquilo que perdi. Fernando Pessoa
4. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir. F.P. ("Apontamento")
5. Eu sou como eu sou/vidente/e vivo tranquilamente/todas as horas do fim. Torquato Neto ("Cogito")
6. Sou um sujeito cheio de recantos. Manoel de Barros, no Livro sobre Nada
7. Tem mais presença em mim o que me falta. Idem
(etc.)
"Mas às vezes acordo do longo sono e volto-me com docilidade para o delicado abismo da desordem" Clarice Lispector, em "A Legião Estrangeira"
Fragmento orkutiano ( I )

"Aonde eu quero chegar com todo esse caos? À esquina do impossível, a uma ordem das coisas que só se sustente por fragmentos de caos. Pequenas porções de caos formando uma ordem cujo valor só poderá ser medido pela beleza da ruína, a ruína-construção que eu quis definir um dia e não consegui porque o que eu chamo de 'caosciência' estava começando a emergir dos primeiros destroços da minha consciência. Eu vinha andando, num momento que era o agora-nunca-mais e aos poucos tudo o que fazia parte dos passos anteriores foi se desmoronando, caminho atrás de mim e todo o resto. Depois foi só dar meia volta e fazer o caminho inverso, até chegar lá longe, no píncípio da ruína.
Enfim, não sei explicar nada direito e, como disse o Manoel de Barros (um dos meus poetas favoritos): 'o que não sei fazer desmancho em frases'. É um jeito de se fragmentar..."
Agradeço à Medusa Insana por ter me lançado no abismo de uma pergunta...
segunda-feira, 20 de novembro de 2006
Dois apontamentos
Onde caberia um monte de explicações sobre o que é ser fragmentário, ter o pensamento em pedaços e ver a memória como uma ilha, fica melhor um poema do Fernando Pessoa; um poema que, se não me tranquiliza, ao menos me faz pensar em outros apontamentos...
APONTAMENTO
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Álvaro de Campos, 1929
Chaos et vita.
APONTAMENTO
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Álvaro de Campos, 1929
Chaos et vita.
domingo, 19 de novembro de 2006
Primeiros cacos
"Com pedaços de mim eu monto um ser atônito"
Manoel de Barros, no Livro Sobre Nada
Eu sou fragmentário. A casa que eu quis fazer de pensamentos e planos começou a cair quando se erguiam as primeiras paredes. Do desmoronamento tirei palavras: algumas eu quis usar por desespero, outras já eram minhas, mas, destruídas, tomaram posse da desordem. Destas últimas eu ergui o caos, e não me perguntem que definições eu tirei dos dicionários porque já me esqueci faz muito tempo. Eu ergui o caos da poeira e fiz dele palavra minha, uma palavra para fazer frente a todas as outras. A ordem nascida da desordem, ou casca de ordem guardando o ovo-caos como um fóssil vivo. O caos deixado-em-si-mesmo ou exposto por dentro...
Manoel de Barros, no Livro Sobre Nada
Eu sou fragmentário. A casa que eu quis fazer de pensamentos e planos começou a cair quando se erguiam as primeiras paredes. Do desmoronamento tirei palavras: algumas eu quis usar por desespero, outras já eram minhas, mas, destruídas, tomaram posse da desordem. Destas últimas eu ergui o caos, e não me perguntem que definições eu tirei dos dicionários porque já me esqueci faz muito tempo. Eu ergui o caos da poeira e fiz dele palavra minha, uma palavra para fazer frente a todas as outras. A ordem nascida da desordem, ou casca de ordem guardando o ovo-caos como um fóssil vivo. O caos deixado-em-si-mesmo ou exposto por dentro...
quinta-feira, 16 de novembro de 2006
Ignis meae mentis
Ignício
toda idéia
em seu começo
é o suave arremesso
de um coquetel
molotov (2004)
Fiz esse poema numa tentativa de explicar o poder que tem uma idéia no exato instante em que nasce. Pode ser a idéia mais boba, a mais descabida de todas, não importa, o efeito é sempre semelhante a uma chama, a qualquer coisa que lembre um fogo súbito. Daí o "ignício" - uma mistura meio doida de ignis (fogo em latim) e início, o incêndio primord
ial, que pode ser breve ou consumir tudo o que vier pela frente, dependendo da força da idéia.
E assim, de uma palavra lançada sem mais nem menos, veio a idéia de um blog. Numa palavra que trazia em si o fogo de uma idéia brotou o incêndio, e eu espero nele me consumir da maneira mais proveitosa. E eu já aproveito para tranquilizar aos poucos que tiverem a ousadia de ler as minhas palavras: nesse fogo vindo de idéias só o incendiário pode se queimar, a não ser, claro, que um ou outro leitor deseje o mesmo.
Bem, aí está um início explicado, e talvez isso baste por hoje. Uma dose de caos fica pra uma outra hora.
Ah, um pequeno lembrete para um possível leitor: é bom ter aí guardada uma reserva de paciência para palavrinhas mais do que estranhas...
Chaos et vita.
toda idéia
em seu começo
é o suave arremesso
de um coquetel
molotov (2004)
Fiz esse poema numa tentativa de explicar o poder que tem uma idéia no exato instante em que nasce. Pode ser a idéia mais boba, a mais descabida de todas, não importa, o efeito é sempre semelhante a uma chama, a qualquer coisa que lembre um fogo súbito. Daí o "ignício" - uma mistura meio doida de ignis (fogo em latim) e início, o incêndio primord
ial, que pode ser breve ou consumir tudo o que vier pela frente, dependendo da força da idéia.E assim, de uma palavra lançada sem mais nem menos, veio a idéia de um blog. Numa palavra que trazia em si o fogo de uma idéia brotou o incêndio, e eu espero nele me consumir da maneira mais proveitosa. E eu já aproveito para tranquilizar aos poucos que tiverem a ousadia de ler as minhas palavras: nesse fogo vindo de idéias só o incendiário pode se queimar, a não ser, claro, que um ou outro leitor deseje o mesmo.
Bem, aí está um início explicado, e talvez isso baste por hoje. Uma dose de caos fica pra uma outra hora.
Ah, um pequeno lembrete para um possível leitor: é bom ter aí guardada uma reserva de paciência para palavrinhas mais do que estranhas...
Chaos et vita.
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