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terça-feira, 25 de setembro de 2012

recorte

"Acima de tudo, lembramos. Intransitivos, nós lembramos. E lembrar é viver na ilha da memória que é passado.  Quando a memória - quando qualquer memória - é partilhada com alguém, ela passa a ser habitável e é, de fato, habitada. Por algumas horas moramos num passado remoto e morto, com ligeiras incursões por um presente onde o único sentido são as palavras que a gente cria pra manter o fio aceso das coisas."   (21 de setembro)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

intervalo



O passado às vezes volta rabiscando linhas tortas. Mas não há, entre tantas soluções, nenhuma palavra capaz de esconder todos os escombros. O que foi resta - pesadamente - feito papel envelhecido com coisa dentro ou resíduo de memória. Mais nada.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

"Somos os que se abstêm de destruir, e nisso se consomem."
Clarice Lispector, no conto "O ovo e a galinha"

sábado, 19 de fevereiro de 2011

À la frontière du rêve

Alguém que sequer ouviu
o estampido o tiro ou o grito
acordou
inaugurando à beira da manhã
o mais pacífico
dos silêncios

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

meia-volta

volta e meia, esta dorzinha de cabeça
- pontadas do que poderia ou não já ter escrito
mas é no abandono de envelhecer
dias meses e anos
que, súbito,
se descobrem e se desdobram
sementes de outras geografias
tão mais acidentais quanto mais maturadas

revolta e meia
vitória sobre o tempo:
não morri
não fiquei sozinho
não se abriu o caos que eu queria
embora outra coisa
caos em câncer
herdado

o que veio
foi circular:
este gosto de viver
e esta satisfação tão antiga
de caminhar sobre a terra

como abandonar estas ilhas
tão nosso mundo?

se volto e aceno
é meio caminho
pra querer ficar

pois, então,
diga ao pouco
que fico

e me fixo

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Medidas para saber cair

começavam com a morte de alguém, qualquer coisa como um ruído, pessoa surpreendida
o rosto conhecido, depois, todo o resto, desconhecido porque morto
pensava-se que o vazio chegava em caminhões
todos se abasteciam
para a semana, o mês
pacotes completos, variados
eu não sabia de nada

o que eu queria era o avesso
mas não tinha lado nenhum, cara ou coroa pra onde olhar

jogava-se sem que fosse jogo
corria-se sem que houvesse caminhos

só assim era possível carregar desertos pra dentro de casa
e enfeitar com eles as paredes todas
arquitextura
insuperável deserto ao redor de quem o quisesse
(espelhos convergindo para mais desertos)

desertar era o aprendizado
único
e certo

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Residual

Anoitentorpecendo, quem sou eu pra negar?
Qualquer coisa se quebrou, mas eu juro que nada caiu. Não fui eu.
Este silêncio é de quem quis.
Fosse outra coisa, festa ou alarme, qual a importância?
Não vou contar a minha doença. A solução é contar as horas. Quando muito, os dias.
De dia em dia, dois anos. Ou quase.
Vivo a impaciência inseparável do meu sossego.
Meu tempo é este, este lado que ainda não dói. Esta fresta, por onde olho...
Tenho cartas de amor pra entregar. Tenho um amor pra viver, cada dia janela se abrindo.
Futuro é só quando, à tarde, eu espero a noite chegar, encontroencanto...
Me multiplico em páginas, quem lê (ela) sabe: amar requer um pedaço de mim em cada palavra...
Repor é preciso.
Repouso. Só descanso enquanto me fragmento...
Viver é grande. Ainda que o tempo seja pequeno.
Um pouco de sonho pra me desenhar...
Um dia ainda lembro que gosto tinha a vida no começo.
Enquanto isso, alguns passos.
Passei no vestibular.
Agora ouvi...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

domingo, 10 de junho de 2007

Entre o que eu não disse e o que não vou dizer

"EU vivi, portanto, apenas de diário e no diário, e isso não foi de minha escolha nem de minha vontade, pois vontade é uma coisa tísica que diz respeito ao registro do sorvete e escolhas, aquelas que contam, foram feitas quando tínhamos os olhos vendados, quando ainda não tínhamos palavra nem sabíamos o que escolher significava."

Juliano Garcia Pessanha, em "Província da Escritura"

sábado, 26 de maio de 2007

Senhas e outros sonhos

começarde inflama: quero a idéia-silhueta de um jeito de ser que não precise de explicação EXPLICANSAÇO quero o delírio de existir apenas e apesar de, sem pesos e sem medidas
desmedidamente exato no que tenho de informe (este jeito de ignorar sabendo de antemão)

escrever é para os deliriosos o que amar é para os encantados mais realistas

eu queria porque queria divergir do que vejo e depois me divertir às custas da vertigem (que é verter os avessos)

eu não queria que olhos verdes tivessem sobre mim esse efeito de janela aberta pro infinito (o infinito mais próximo da minha imagem refletida)

pensei em escrever um desertoário, diário dos pequenos desertos de uma vida que só tem de deserto o gosto pela ausência

a vida não tem gosto mas eu gosto

saber que logo estarei morto é só um jeito de pôr o despertador no topo da vida
e amanhecer amanhecer amanhecer
e tecer com música e palavras o pedaço que falta

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Resíduo

Um resíduo do meu dia escorrendo para o sono...


PAUSAS

colecionar as vírgulas
abandonadas
partidas

as vírgulas que se quebraram
na pressa de contar
um segredo
ou no deslumbre
de um susto

delas extrair o tempo guardado
(para respirar?)
e exibir os sons:

pausas no silêncio

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Vertiginografias

a mulher que morreu dias atrás ardia no sol de uma quarta-feira sem mais pretensões que a de viver até apagar a idéia do fim fabricado o eco do último instante numa notícia arranhada em alto-falantes som é tudo o que sobra desdobramento e depois um eco um esboço de recordação mais adiante e por fim substrato artefato projeto atrasado nada esquecimento oblivio
as paredes da existência são cascas de ovo admirável mundo-ovo que mal tocado escancara aflições e esperanças e medos e fugas e dói não saber o que foge a essa análise que percepção que omissão vinda de outros séculos quem escondeu a palavra que abriria o cofre a frase que derrotaria essa esfinge feita de espera e ânsia
ninguém nas escadas e nos corredores ninguém na calçada ninguém capaz de passar por uma rua e ser para sempre alguém que passa por uma rua sempre alguém que passa por todas as ruas possíveis e impossíveis sempre alguém que pode estar aqui ou ali sem controle e se orientando sempre pela passagem das horas pela necessidade de estar aqui e depois em outra parte movimentando
porque viver jorra movimentos pra todo lado quem olha quem caminha quem corre quem move os braços alçando todos os gestos quem articula a pronúncia de cada palavra ah as medidas para se saber existindo!
construções e ruínas para figurar o ir-e-vir de todas as coisas quem omitiu o desastre o desacerto o desalinho não sabia nem nunca saberá o paradeiro das esperanças mais reluzentes

desalinhas


Dias e dias sem uma palavra. E quando volto, é com sono e dor de cabeça.

Nunca fui muito responsável ao pensar na idéia do meu futuro. E nem sei se é essa negligência que me deixa irritado só de sentir o peso que as pessoas dão a essa palavrinha. Futuro... FU-TU-RO... futuro! Vai ver eu me perdi com a idéia de que só é possível alcançar o intervalo de hoje, hoje-sempre...

Mas existem coisas que se arranjam com alguns passos firmes. E assim é que eu saí da incerteza e vim cair numa idéia nova, ânimo novinho em folha. Num intervalo de dois meses: um concurso, uma espera, um resultado (um bem-vindo segundo lugar) e uma contratação. Trabalho novo, pedaço de futuro se desenhando...

domingo, 21 de janeiro de 2007

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

Dostoiévski explica ( I )


Sou como o Raskolnikhóf do Crime e Castigo. Só que, em vez de ter matado alguém, eu arranquei pedaços de mim e substitui por coisas alheias, um pensamento, um gesto, um jeito de agir e falar. Coisas alheias ou inventadas, pouco importa. De todo jeito, um crime...
O crime da idéia fixa.

"Abandonara por completo os seus trabalhos cotidianos e não queria preocupar-se com eles. Na realidade, não temia a dona da casa, por muito que pudesse tramar contra ele. Agora, ter de parar na escada, escutar todas as tolices daquela mulher, estúpida até o absurdo, e que não lhe interessavam absolutamente nada; todos aqueles disparates a respeito do pagamento, aquelas ameaças e lamentações, e, ademais, ter de falar, desculpar-se, mentir, não, preferia atirar-se como um gato pelas escadas abaixo e deixar-se cair ao abandono, contanto que não visse ninguém."

"Mas não tardou que voltasse a mergulhar numa espécie de profundo indiferentismo e, para sermos mais precisos, num completo alheamento de tudo, de tal maneira que caminhava sem fixar a atenção à sua volta e também sem querer fixá-la. Somente uma ou outra vez murmurava qualquer coisa por entre os dentes, obedecendo ao costume de monologar (...)"

Imagem: Matheus Nachtergaele, em cena do filme Nina (2004)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Efeito da insônia?

"De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra - Como um lápis numa península." Manoel de Barros, no Livro sobre nada

Eu queria ser claro ao dizer as coisas. Bem, é muito fácil encontrar o caminho da clareza e ir andando, depois de extrair dos destroços da minha vontade um "Fiat lux!" bem sonoro, como um grito pra marcar o início. Fácil porque, na verdade, eu uso complicações para distrair os outros da minha falta de jeito com as palavras. Como usar óculos escuros: basta deixá-los de lado quando se quer ver melhor...
E isso pretendia ser um desabafo na mesma linha das "confissões" feitas pelo personagem do García Márquez (ver o trecho do Memórias de minhas putas tristes). Enfim, tem que ser alguma coisa, que seja um desabafo.
Eu sou dissimulado. Para evitar a exposição dos meus cacos ou, o contrário, mostrar total constância, equilíbrio, escolho qualquer atalho entre, um meio-termo entre expor toda a ruína e representar a farsa da existência. Pensando bem, isso não é ser dissimulado, pelo menos não totalmente. Já não dá pra dizer o mesmo da minha desconfiança. Essa não se divide e nem é flexível como qualquer outro defeito que eu possa ter. É maciça, de pedra, embora não tão aparente como eu gostaria (e aqui já entro em contradição com o que disse sobre a dissimulação). E é assim: desconfio, logo existo, esse o passaporte para a minha compreensão do mundo (de parte dele)...
Bastaria um pouco mais - um pouquinho só - de ânimo para eu deixar bem nítido o esboço da minha misantropia. Mas estou cansado, vindo de umas sessões de insônia...
E só pra dar um gostinho de indiferença a tudo isso:

"Pouco me importa. Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa" (Alberto Caeiro)

domingo, 14 de janeiro de 2007

desertoásis

chuvisqueiro se estendendo lá fora umidade para os dias que virão secos
e eu que pintei de azul-mar a cerca que fiz nos fundos de casa
agora da porta em diante o meu olhar recorta um pouco de azul das tábuas e um pedaço de grama muito verde e muito alta por causa da chuva dos últimos dias
quem se habilita a cortar a grama úmida numa manhã de domingo?
e me lembro que chover era o acontecimento que me lavava a infância e fazia dela o grande deslumbramento de viver, a vida se fazendo líquida misturada à terra planta recém-nascida
hoje com uma pequena distração os pingos entram pela janela que alguém esqueceu aberta e é mais fácil pensar que a chuva faz a grama crescer demais do que ver os pedaços de deserto trazidos pelo tempo porções de areia soterrando antigas memórias

sábado, 13 de janeiro de 2007

Imago et verbum


"Ordem e Caos", Mauritus Cornelis Escher, litografia de 1950


"O Caos é a página onde a realidade é escrita.” – Henry Miller

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

Desarticolado


vertigem para onde resvala o imensurável pedaços de memória amarrados feixe de lenha pra queimar um dia fogueira monumental do que guardo ( ardo tudo o que fui madeira guardada como espera de incêndio) ah os cacos dos dias que se foram dependurados na janela! enfeite desbotado prego velho que merda de aparências mal arquitetadas vive o grande projeto de ser qualquer coisa risco líquen muro esquina esta coisa de estar atrás dos olhos tudo o que sou é janela de ver a si mesmo em fragmentos e sei que vou morrer ah mas ilha cercada de morte por todos os lados tem de receber um náufrago nativo-estrangeiro seja lá o que for de que cor textura ritmo será feito o último instante e onde estacionar as memórias todas entalhar na madeira rabiscar num muro vejam fui aquele morto antecipado aquele cujos pedaços mal fossilizados ainda recendem a animal vivo vinculado a uma porção de matéria que se chamam pertences bugiganças tranqueiras essas coisas de que o uso e o desuso se nutrem por favor tirem tudo o que está nos arredores da minha retina não quero nada que me roube a atenção e no meio de um quase oásis-nada feito de ausência quero encontrar a fonte organismo-textura para a minha consciência

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Trecho como um fragmento de espelho...


"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio."
Gabriel García Márquez, em Memória de minhas putas tristes

Chaos et vita.

domingo, 31 de dezembro de 2006

Tempus sine nomine


Adicione uma chuvinha teimosa e um belo resfriado a um dia de domingo pra ver no que dá: esta falta de jeito pra fazer qualquer coisa. Um pouco de música, um tanto de leitura, mais um tempinho com jogos, um pouco de conversa... Temos aí um dia escorregadio, passando entre coisas, sem se deter em nada. As últimas horas do ano escorrendo.
Esquisito é se afastar um pouco do próprio pensamento e dar por si mesmo numa sequência de dias que existem independentes de nós. E no fim toda a definição (arbitrária) que damos à passagem do tempo (horas, meses, etc.) é o que importa. "31 de dezembro" parece ser um lado, "01 de janeiro", o outro lado de um lapso no tempo. E nós ficamos no intervalo do dia que passa, fronteira entre o passado e o futuro de nós mesmos. De nosso, verdadeiramente nosso, só este dia que está se acabando, este dia sem nome, sem milagre e sem enfeite...
E eu deveria dizer, seguindo os meus próprios descaminhos: "Feliz Intervalo Novo", um brinde ao tempo sem janeiro-fevereiro, à vida sem número. Um brinde a tudo que se passa para além da janela, anonimamente...
Não poderia terminar sem deixar aqui um pedacinho inesquecível da minha leitura de hoje, de um conto do Saramago (O Conto da Ilha Desconhecida):

"Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar"

Chaos et vita.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Esquadros

Uma pausa, um pouco de cor na monotonia desse p&b...

Esquadros
Adriana Calcanhoto
Composição: Adriana Calcanhoto

eu ando pelo mundo prestando atenção
em cores que eu não sei o nome
cores de almodóvar
cores de frida kahlo, cores
passeio pelo escuro
eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
e como uma segunda pele, um calo, uma casca,
uma cápsula protetora
eu quero chegar antes
pra sinalizar o estar de cada coisa
filtrar seus graus
eu ando pelo mundo divertindo gente
chorando ao telefone
e vendo doer a fome nos meninos que têm fome

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

eu ando pelo mundo
e os automóveis correm para quê?
as crianças correm para onde?
transito entre dois lados de um lado
eu gosto de opostos
exponho o meu modo, me mostro
eu canto pra quem?

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
minha alegria, meu cansaço?
meu amor cadê você?
eu acordei
não tem ninguém ao lado

pela janela do quarto
pela janela do carro
pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
eu vejo tudo enquadrado
remoto controle

(imagem: Janela do Ateliê em Saint-Remy, Van Gogh, 1889)